quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Viajo por um túnel interminável, largo e silencioso. Penetro com cuidado nas entranhas desse sujeito que deveria ser eu. Estou diante da Câmara Clara e simulo efeitos, construo uma narrativa para dizer o que não sou. Desapareço pasteurizado na gelatina, nos pixels. Atravesso o papel. Ondas variáveis, inúmeras, infindáveis sobre as pedras, corais infinitos, submersos.
Corro pelo tombadilho, percorro a amurada homogênia. A nau atraca. O desembarque é frenético. Desço a escadaria em desatino. A cidade me observa. Avisto um espelho numa loja. Me vejo refletido por inteiro. E sou eu, desterrado. Ilhéu numa ilha ilhoa.
O português da tabacaria do prédio colonial me vê como eu sou: um comedor de chocolates. “Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!”, talvez pense ele de mim. Pelas ruas não encontro nenhum amigo, ou conhecido. Os estranhos me reconhecem. Reconhecem a mim, estrangeiro em terra natal.
O vento atravessa a baía e penetra na cidade, sacode o meu casaco. Ao longe, no mar, há um pequeno barco com dois homens a bordo. Estão aflitos para chegar a terra firme - a ventania os pegou de surpresa. Eu os vejo e eles a mim. A polícia marítima parte em socorro. Quando retornam, os náufragos são agradecidos comigo: “Este homem é nosso herói. Foi ele quem nos viu e nos salvou. Salve-o”. Agradeço.
Sigo para a rua principal na deserção do final de tarde. Trabalhadores tomam o caminho de casa. No passeio, avisto mulheres, passa uma, passam duas, passam três. Passam correndo. Uma delas ainda olha para trás, mas se afasta rapidamente no turbilhão da cidade irreconhecível.
Durmo, sonho, desperto. Ainda procuro o que deveria ser dito. E digo para mim o que gostaria de ouvir: foge, continua correndo, toma a avenida Rio Branco, desce pela Frei Caneca, atravessa a Hercílio Luz. Corre atrás do sonho, da fascinação, do prazer. Segue neste caminho que não há outra alternativa para você encontrar a sua dose diária de felicidade.
Tomo um táxi e sigo pelo anel viário do perímetro urbano. Enquanto o carro de aluguel corre comigo à borda da Baía Norte, descubro com os versos de Ferreira Gullar que as pedras, as nuvens e as árvores, no vento, mostram alegremente que não dependem de nós.
Mas eu dependo. Dependo do que dizem de mim, do que preciso ouvir e do que, enfim, é imponderável. E sigo pela rua povoada, pelo terminal rodoviário, pelo aeroporto. Viajo, chego e parto. E estou novamente no centro, sobre o petit-pavê do calçadão, preto e branco, minimalista. No piso, desenho anagramas, leio histórias particulares. Apresento teorias pessoais sobre este sujeito que transita em via pública, e sobre o que mais ele inventaria para se desdizer

10 comentários:

  1. porra, fifo, diga logo que você está fazendo 50 anos. deixe de rodeios, tchê!

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  2. Fantástico!
    Adorei!!
    Beijos e Feliz Aniversário (de novo!!)
    Luiza

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  3. Saudades do Fifo

    Feliz aniversário, mais uma vez!

    Ainá

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  4. meus parachoques, fifo. meio século é uma idade respeitável. kkkkk

    amprex do vini

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  5. É, meu véio... é... bom, é mesmo. Também quero chegar lá. Abraços! P.S.: Estás escrevendo como um Senhor. :) Isso é uma das coisas boas de envelhecer... :))) Parabéns!

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  6. que lindo este seu avesso em versos!!!
    então seguir...correr....desterrar seus sonhos é legítimo e de cá os beijares de afeto sincero

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  7. naralisboa@laposte.net16 de dezembro de 2009 13:16

    Como tudo que escreves, maravilhoso!
    outro dia me deu saudades da nossa época do Frutos da Ilha,faz 20 anos! beijos meu amigo querido!

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